quarta-feira, 25 de junho de 2008

SOLIDÃO A DOIS

Pelo menos uma vez na vida, você já deve ter se sentido sozinho no mundo, embora esteja entre família e amigos. Há casos em que essa sensação logo vai embora, em outros, ela passa a ser permanente.
Esta impressão de estar cercado de indivíduos e, ainda assim se sentir sozinho, é tão mais comum do que se possa imaginar. Esse crescente estado de solidão nas pessoas se torna mais evidente muito mais pelo deslocamento mental que necessariamente pelo físico. Há uma desconexão amplificada pela total falta de sedimentação com o plano no qual se está inserido, ou seja, o mundo real não é real para nós.
Estas questões levam a crer que sua áurea não está em sintonias com as demais. Os níveis de suas existências estão menos elevado que o seu, isso termina por te aprisionar a uma realidade limiar, que noutras palavras se costuma dizer, “preso entre dois mundos”.
É raro encontrarmos as pessoas certas para dividir com elas a sintonia em que nos encontramos. Tudo parece muito estranho, as conversas são vazias, a companhias não fazem sentido, as aspirações são pequenas demais para nós.
Extravasar é mergulhar em si mesmo para se libertar, mas isso, só acontece quando descobrimos o que os pobres mortais costuma chamar de “alma gêmea” ou ainda “cara metade”, o que se pode comprovar em quarto semi-escuro ao contemplar os lados da face em intercalando-os com luz e sombra, os traços nunca são iguais, embora a simetria possa parecer perfeita, daí muita gente gostar de fotografar de apenas um tipo de ângulo, o seu melhor.
As pessoas solitárias em meio à multidão têm uma sina diferenciada, um sacrifício bem maior do que estar fora de seu mundo, um sacrifício de redenção para com os seus semelhantes e, por isso mesmo, suas existências são mais breves nesse plano.
Há que se separar o que é ser sozinho do que é ser solitário. Jesus na noite de sua captura se sentiu sozinho, mas nunca solitário.
E você, como se sente?

sexta-feira, 13 de junho de 2008

MUITO MAIS QUE MARCHAS E CARTAZES


1968 foi um ano marcado por uma efervescência muito grande em todo mundo, jovens levantaram suas vozes contra uma realidade caótica que se lhe apresentava no âmbito cultural, econômico, político e porque não dizer moral.
A televisão era o mais novo meio de propagar de um país a outro a insatisfação que acabou por contagiar a todos. Nos Estados Unidos os desgastes acumulados com uma guerra perdida (Vietnã), o assassinato de Martin Luther King e a segregação racial, foram o estopim para uma crise interna sem precedendes, com protestos em todo o país.
Os protestos na França começaram devido ao fechamento da Universidade de Nanterre, por sua conduta burocrática e à condenação da divisão dos quartos da residência estudantil com alunos de sexo oposto. Essas reinvidicações, aos poucos foram ganhando apoio de outras universidades, como a de Sorbonne, o que levou os estudantes à ocuparem em Paris, as ruas do Quartier Latin (quarteirão latino), local que concentra universidades e escolas desde a idade média, onde se ensinava em latim, daí a origem do nome. Outras classes resolveram aderir, os trabalhadores sindicalizados da França pararam de trabalhar e decidiram ocupar as fábricas, exigindo do governo De Gaulle, melhores condições de trabalho e salários justos. Barricadas nas ruas, coquetéis incendiários, pichações, cartazes, palavras de ordem, pedras arrancadas dos calçamentos e atiradas contra a polícia de choque francesa. O clima de guerra estava instaurado, prisões, agressões, direitos desrespeitados, os aparelhos repressores reprimiram o movimento com violência redobrada. A elite artística francesa se fez presente, François Truffaut e Jean Luc-Godard comandaram o boicote à realização do Festival de Cinema de Cannes daquele ano turbulento. Alicerçados pelo pensamento de intelectuais como Herbert Marcuse, um dos principais defensores da Nova Esquerda, ou de Guy Debord, da Internacional Situacionista
, corrente que atribuía a debilidade espiritual, tanto das esferas públicas quando da privada, a forças econômicas que dominaram a Europa após a modernização decorrente do final da II Grande Guerra, os estudantes terminaram por incendiar uma revolta que teve repercussões em grande parte do mundo. Em países como Polônia, Espanha, Itália, Alemanha Ocidental e Japão os estudantes foram às ruas.
Em outras partes do mundo, como na Tchecoslováquia, aconteceu a terrível “Primavera de Praga”, onde a União Soviética com temor de que as idéias do “socialismo humano” pregadas por Alexander Dubcek
, contagiassem outros países alinhados ao duro regime comunista, deslocou seu exército para invadir o país, a sangrenta reação levou o país a se unir num esforço de debelar a invasão soviética. Também no México, durante os Jogos Olímpicos de 68, centenas de estudantes foram assassinados na Plaza de Las três Culturas, quando protestavam tentando chamar a atenção do mundo. O estopim foi quando o governo ordenou ao exército que ocupasse o campus da Universidade Nacional Autónoma do México (UNAM), a maior da América Latina. Os estudantes foram presos, espancados e detidos de forma criminosa. O reitor da UNAM, Javier Barros Sierra, demitiu-se como forma de protesto e em solidariedade à classe estudantil mexicana. Com isso, as manifestações só aumentaram, o que levou cerca de 15 000 estudantes de várias universidades, invadirem as ruas da Cidade do México, em apoio a UNAM. Em 26 de outubro, ao entardecer, 5 000 estudantes e trabalhadores, muitos deles com suas famílias foram surpreendidos por tropas que abriram fogo indiscriminadamente, num massacre até hoje obscuro, até no número de vítimas. Testemunhas afirmam que caminhões de lixo recolhiam e amontoavam corpos, inclusive de crianças. Este extermínio que ficou conhecido como “Massacre de Tlatelolco”. No Brasil, logo no início do ano de 68, os movimentos estudantis reinvidicavam mais verba para a educação e mais democracia. Nu deste protesto, aconteceu a morte do estudante Edson Luís, durante um confronto entre polícia e manifestantes. O fato criou uma comoção geral no Rio de Janeiro, o que mobilizou a cidade em suas mais diversas instituições a organizar a “Passeata dos 100 mil”, reunindo a elite política, artística, os trabalhadores e estudantes num protesto aberto contra a ditadura militar.
Em São Paulo, o conflito entre estudantes da USP e da Universidade Mackenzie, que resultou na morte do estudante José Guimarães, colocou a polícia em estado de alerta. Dias depois, o comando da PM ordenou a prisão em Ibiúna, interior de São Paulo, de todos os estudantes que participavam do congresso da UNE, (cerca de mil) entre eles os principais líderes do Movimento Estudantil – Vladimir Palmeira, José Dirceu, Flávio Travassos e outros.
Depois disso, foi instituído o Ato Institucional número 5, o AI-5, em resposta ao discurso contra as Forças Armadas proferido pelo deputado Márcio Moreira Alves.
O AI-5 municiou o governo com poderes para dissolver o Congresso Nacional, suspender eleições diretas e tirar as liberdades individuais, políticas e de imprensa. A partir daí, deu-se início à perseguições, assassinatos e tortura de parlamentares, sociólogos, professores, jornalistas, artistas dentre outros, que tivessem de alguma forma pensamento desalinhado com os militares e suas diretrizes. Esse tempo tempestuoso ficou conhecido como os “anos de chumbo”. Vários movimentos tentaram o levante armado, mas a população não aderiu à luta de guerrilha. O AI-5 só foi revogado em 1978.
Muitos aspectos ficaram evidentes, a liberdade de imprensa, as liberdades individuais, a abertura política e, sobretudo, uma coisa “os anos da inocência morreram quando naquele instante o mundo acabou com a diferença do que era o bem e o mal”. Muitas mudanças ocorreram e ainda ocorrem, os processos, a devassa de arquivos secretos, revelações, conquistas e conflitos ideológicos e morais. Por conta de todos esses aspectos, Zuenir Ventura afirma em seu livro, que 68 é o ano que não acabou.

sábado, 7 de junho de 2008

ROMEU E JULIETA

Eu e meu amor somos assim,
o prato e a colher,
a tampa e a panela,
a flor e o jardim,
o feijão e o arroz,
a lua e as estrelas,
unha e carne.
café com leite,
almas idênticas,
quase as mesmas digitais,
minha banda da laranja,
meu ontem, hoje e amanhã.
Unidos assim
pra vida inteira.

quarta-feira, 4 de junho de 2008

NO CAMINHO DE VARESE

Desejoso de fincar os pés em uma realidade alternativa, fui levado a uma visão em que caminhava por bosques floridos à sombra de frondosos carvalhos, lindos narcissus e uma vez ou outra, alguns lírios e palmas.
Ao largo da estrada, revelava-se a verdejante colina entrecortada por córregos de águas frias e cristalinas, o vento, aumentava ainda a sensação térmica do clima gélido do lugar. Esperar encontrar pessoas pelo caminho era um acontecimento raro, a não ser, vez por outra a aparição de algum pastor de ovelhas com seu solitário rebanho.
A despretenciosidade do passeio contrastava com meu objetivo, e as veredas calcadas em pedras frias, conduzia–me a um lugar bucólico no interior de uma vilarejo aos sopé dos Alpes italianos.
Desejoso que estava de encontrar minha Maria, a mais linda flor brotada no Lácio, deparei-me com um ícone de um passado tão distante quanto fora os dias de glória daquelas paragens quase intocadas pela mão humana, uma construção insólita, que resistiu ao tempo, paredes de pedras brancas calcárias do que fora certamente um posto de observação romano, um dos muitos usados durante a marcha de Aníbal rumo a Roma.
Tirei da mochila uma máquina fotográfica, ajustei o controle para o automático e perfilei-me ali, junto a entrada do fortim. O flash que registrou aquele momento ímpar, iluminou o cenário de pedras banhadas por uma fina camada de orvalho e coberta por um lodo quase milenar , então, algo chamou minha atenção, pude perceber em uma delas uma inscrição em latim antigo, não que seja um expert, mas era algo assim: “Avrelivs Marcelvs - Aprilis- Anno consvle Pvblio Cornelivs Cipiao”, algo que beira uma tradução grosseira de “Aurélio Marcelo – abril do ano do consulado de Públio Cornélio Cipião”. O que pude imaginar, é que alguém do passado fez o que fazemos hoje, uma inscrição do tipo "eu estive aqui". Alguém esteve ali, quis registar sua presença, no entanto, uma série outras questões afloraram em minha mente, chegando mesmo a me fazer crer que talvez a minha passagem por ali tivesse um outro propósito que não apenas o de rever Maria. Talvez a inscrição esquecida fosse apenas para me lembrar de que agora eu estava ali. Se era uma inscrição autêntica, se estava correta, se quem a fez teria sido um menino ou um soldado romano, se era apenas um marco de alguém que quis deixar uma lembrança, se depois disso alguém nunca a viu, a estudou ou levou aquela pedra para um museu? Não tinha mais tanta importância, eram perguntas demais para um leigo viajante. Perdi algum tempo absorto em elucubrações, por fim, desperto por um balido longíncuo de uma ovelha, levantei-me e tirei uma outra foto da pedra. Então, em meio às minhas conclusões, comecei a perceber que em uma terra onde os vestígios históricos estão por toda a parte, nada mais natural de que parmenecerem ali, para que possam instigar a imaginação e deslumbrar caminhantes incautos como eu. No fim, descobri que estava ali para fazer minha própria história.
Os ares das montanhas italianas são assim; bucólicos, românticos e reveladores.
Segui adiante, até avistar por trás da colina o pequeno vilarejo perto de Varese. As casas com suas chaminés de pedras exalavam tênue fumaça branca em sinal de boas-vindas, naquelas horas vespertinas, uma quente sopa de legumes me animaria após tão longa caminhada. Agora, feliz por encontrar-me com Maria, percebi que era ela que reperesentava a própria essência de beleza daquele lugar.
Finalmente, todo o resto do acontecido daquele dia tomaria seu lugar de direito na história, particularmente, na minha história.

segunda-feira, 2 de junho de 2008

SONHO MEU, EU SONHAVA QUE SONHAVA

Sonhei que havia adormecido num sono extremamente profundo. E no sonho, todas as coisas iam bem demais. Sabe quando você sonha que dormiu, acordou e crê piamente que este despertar no sonho é a própria realidade de perfeição, aquela que você tanto almejou, pois é...
Acordei numa pousada na praia, num fim de tarde mágico, as crianças brincavam, correndo pela orla, a amada com uma canga e um enorme chapéu, desfilava ao sabor do vento vespertino, eu, de bermuda e uma camisa florida vermelha, fui me juntar a eles.
Ah, que sono bom! Revigorante, pensei comigo.
Passeávamos pela praia, uma cena familiar típica de um final feliz de novela.
Eu não me recordo de problemas financeiros, estávamos em férias, parecia mesmo que havia tirado a sorte grande.
O mais interessante é que tudo ia bem, tanto em minha vida, como na do país. A saúde, educação, segurança, tudo funcionava, finalmente o Brasil, tornara-se primeiro mundo, mas havia uma diferença, o país era um paraíso turístico ecológico de vital importância.
Mas o que houve? Dormi pobre e agora desperto assim? Tudo mudado, apesar de maravilhosa, esta realidade difere em muito da que eu conhecia.
Meu Deus, isto é real ou apenas mais um interlúdio de meus desejos?
Bacana ser rico, poder ser e ter, mesmo com alguns dissabores que a riqueza possa trazer.
Praia, sol, côco, lancha, hotel, mar, vento. Que mais poderia desejar?
É cruel não poder transformar realidades alternativas em permanentes. Mas, por mais que não desejasse outra vida, sou bruscamente tirado deste paraíso, quando uma voz conhecida diz a meu ouvido: “ São sete horas, desperta para a vida, que hoje é segunda-feira.”
Ah, essas nossas mulheres, tão maravilhosas e por vezes tão cruéis!