sexta-feira, 13 de junho de 2008

MUITO MAIS QUE MARCHAS E CARTAZES


1968 foi um ano marcado por uma efervescência muito grande em todo mundo, jovens levantaram suas vozes contra uma realidade caótica que se lhe apresentava no âmbito cultural, econômico, político e porque não dizer moral.
A televisão era o mais novo meio de propagar de um país a outro a insatisfação que acabou por contagiar a todos. Nos Estados Unidos os desgastes acumulados com uma guerra perdida (Vietnã), o assassinato de Martin Luther King e a segregação racial, foram o estopim para uma crise interna sem precedendes, com protestos em todo o país.
Os protestos na França começaram devido ao fechamento da Universidade de Nanterre, por sua conduta burocrática e à condenação da divisão dos quartos da residência estudantil com alunos de sexo oposto. Essas reinvidicações, aos poucos foram ganhando apoio de outras universidades, como a de Sorbonne, o que levou os estudantes à ocuparem em Paris, as ruas do Quartier Latin (quarteirão latino), local que concentra universidades e escolas desde a idade média, onde se ensinava em latim, daí a origem do nome. Outras classes resolveram aderir, os trabalhadores sindicalizados da França pararam de trabalhar e decidiram ocupar as fábricas, exigindo do governo De Gaulle, melhores condições de trabalho e salários justos. Barricadas nas ruas, coquetéis incendiários, pichações, cartazes, palavras de ordem, pedras arrancadas dos calçamentos e atiradas contra a polícia de choque francesa. O clima de guerra estava instaurado, prisões, agressões, direitos desrespeitados, os aparelhos repressores reprimiram o movimento com violência redobrada. A elite artística francesa se fez presente, François Truffaut e Jean Luc-Godard comandaram o boicote à realização do Festival de Cinema de Cannes daquele ano turbulento. Alicerçados pelo pensamento de intelectuais como Herbert Marcuse, um dos principais defensores da Nova Esquerda, ou de Guy Debord, da Internacional Situacionista
, corrente que atribuía a debilidade espiritual, tanto das esferas públicas quando da privada, a forças econômicas que dominaram a Europa após a modernização decorrente do final da II Grande Guerra, os estudantes terminaram por incendiar uma revolta que teve repercussões em grande parte do mundo. Em países como Polônia, Espanha, Itália, Alemanha Ocidental e Japão os estudantes foram às ruas.
Em outras partes do mundo, como na Tchecoslováquia, aconteceu a terrível “Primavera de Praga”, onde a União Soviética com temor de que as idéias do “socialismo humano” pregadas por Alexander Dubcek
, contagiassem outros países alinhados ao duro regime comunista, deslocou seu exército para invadir o país, a sangrenta reação levou o país a se unir num esforço de debelar a invasão soviética. Também no México, durante os Jogos Olímpicos de 68, centenas de estudantes foram assassinados na Plaza de Las três Culturas, quando protestavam tentando chamar a atenção do mundo. O estopim foi quando o governo ordenou ao exército que ocupasse o campus da Universidade Nacional Autónoma do México (UNAM), a maior da América Latina. Os estudantes foram presos, espancados e detidos de forma criminosa. O reitor da UNAM, Javier Barros Sierra, demitiu-se como forma de protesto e em solidariedade à classe estudantil mexicana. Com isso, as manifestações só aumentaram, o que levou cerca de 15 000 estudantes de várias universidades, invadirem as ruas da Cidade do México, em apoio a UNAM. Em 26 de outubro, ao entardecer, 5 000 estudantes e trabalhadores, muitos deles com suas famílias foram surpreendidos por tropas que abriram fogo indiscriminadamente, num massacre até hoje obscuro, até no número de vítimas. Testemunhas afirmam que caminhões de lixo recolhiam e amontoavam corpos, inclusive de crianças. Este extermínio que ficou conhecido como “Massacre de Tlatelolco”. No Brasil, logo no início do ano de 68, os movimentos estudantis reinvidicavam mais verba para a educação e mais democracia. Nu deste protesto, aconteceu a morte do estudante Edson Luís, durante um confronto entre polícia e manifestantes. O fato criou uma comoção geral no Rio de Janeiro, o que mobilizou a cidade em suas mais diversas instituições a organizar a “Passeata dos 100 mil”, reunindo a elite política, artística, os trabalhadores e estudantes num protesto aberto contra a ditadura militar.
Em São Paulo, o conflito entre estudantes da USP e da Universidade Mackenzie, que resultou na morte do estudante José Guimarães, colocou a polícia em estado de alerta. Dias depois, o comando da PM ordenou a prisão em Ibiúna, interior de São Paulo, de todos os estudantes que participavam do congresso da UNE, (cerca de mil) entre eles os principais líderes do Movimento Estudantil – Vladimir Palmeira, José Dirceu, Flávio Travassos e outros.
Depois disso, foi instituído o Ato Institucional número 5, o AI-5, em resposta ao discurso contra as Forças Armadas proferido pelo deputado Márcio Moreira Alves.
O AI-5 municiou o governo com poderes para dissolver o Congresso Nacional, suspender eleições diretas e tirar as liberdades individuais, políticas e de imprensa. A partir daí, deu-se início à perseguições, assassinatos e tortura de parlamentares, sociólogos, professores, jornalistas, artistas dentre outros, que tivessem de alguma forma pensamento desalinhado com os militares e suas diretrizes. Esse tempo tempestuoso ficou conhecido como os “anos de chumbo”. Vários movimentos tentaram o levante armado, mas a população não aderiu à luta de guerrilha. O AI-5 só foi revogado em 1978.
Muitos aspectos ficaram evidentes, a liberdade de imprensa, as liberdades individuais, a abertura política e, sobretudo, uma coisa “os anos da inocência morreram quando naquele instante o mundo acabou com a diferença do que era o bem e o mal”. Muitas mudanças ocorreram e ainda ocorrem, os processos, a devassa de arquivos secretos, revelações, conquistas e conflitos ideológicos e morais. Por conta de todos esses aspectos, Zuenir Ventura afirma em seu livro, que 68 é o ano que não acabou.

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