quarta-feira, 4 de junho de 2008

NO CAMINHO DE VARESE

Desejoso de fincar os pés em uma realidade alternativa, fui levado a uma visão em que caminhava por bosques floridos à sombra de frondosos carvalhos, lindos narcissus e uma vez ou outra, alguns lírios e palmas.
Ao largo da estrada, revelava-se a verdejante colina entrecortada por córregos de águas frias e cristalinas, o vento, aumentava ainda a sensação térmica do clima gélido do lugar. Esperar encontrar pessoas pelo caminho era um acontecimento raro, a não ser, vez por outra a aparição de algum pastor de ovelhas com seu solitário rebanho.
A despretenciosidade do passeio contrastava com meu objetivo, e as veredas calcadas em pedras frias, conduzia–me a um lugar bucólico no interior de uma vilarejo aos sopé dos Alpes italianos.
Desejoso que estava de encontrar minha Maria, a mais linda flor brotada no Lácio, deparei-me com um ícone de um passado tão distante quanto fora os dias de glória daquelas paragens quase intocadas pela mão humana, uma construção insólita, que resistiu ao tempo, paredes de pedras brancas calcárias do que fora certamente um posto de observação romano, um dos muitos usados durante a marcha de Aníbal rumo a Roma.
Tirei da mochila uma máquina fotográfica, ajustei o controle para o automático e perfilei-me ali, junto a entrada do fortim. O flash que registrou aquele momento ímpar, iluminou o cenário de pedras banhadas por uma fina camada de orvalho e coberta por um lodo quase milenar , então, algo chamou minha atenção, pude perceber em uma delas uma inscrição em latim antigo, não que seja um expert, mas era algo assim: “Avrelivs Marcelvs - Aprilis- Anno consvle Pvblio Cornelivs Cipiao”, algo que beira uma tradução grosseira de “Aurélio Marcelo – abril do ano do consulado de Públio Cornélio Cipião”. O que pude imaginar, é que alguém do passado fez o que fazemos hoje, uma inscrição do tipo "eu estive aqui". Alguém esteve ali, quis registar sua presença, no entanto, uma série outras questões afloraram em minha mente, chegando mesmo a me fazer crer que talvez a minha passagem por ali tivesse um outro propósito que não apenas o de rever Maria. Talvez a inscrição esquecida fosse apenas para me lembrar de que agora eu estava ali. Se era uma inscrição autêntica, se estava correta, se quem a fez teria sido um menino ou um soldado romano, se era apenas um marco de alguém que quis deixar uma lembrança, se depois disso alguém nunca a viu, a estudou ou levou aquela pedra para um museu? Não tinha mais tanta importância, eram perguntas demais para um leigo viajante. Perdi algum tempo absorto em elucubrações, por fim, desperto por um balido longíncuo de uma ovelha, levantei-me e tirei uma outra foto da pedra. Então, em meio às minhas conclusões, comecei a perceber que em uma terra onde os vestígios históricos estão por toda a parte, nada mais natural de que parmenecerem ali, para que possam instigar a imaginação e deslumbrar caminhantes incautos como eu. No fim, descobri que estava ali para fazer minha própria história.
Os ares das montanhas italianas são assim; bucólicos, românticos e reveladores.
Segui adiante, até avistar por trás da colina o pequeno vilarejo perto de Varese. As casas com suas chaminés de pedras exalavam tênue fumaça branca em sinal de boas-vindas, naquelas horas vespertinas, uma quente sopa de legumes me animaria após tão longa caminhada. Agora, feliz por encontrar-me com Maria, percebi que era ela que reperesentava a própria essência de beleza daquele lugar.
Finalmente, todo o resto do acontecido daquele dia tomaria seu lugar de direito na história, particularmente, na minha história.

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