segunda-feira, 12 de abril de 2010

Garoto de Blograma

Garoto de Blograma

CARTA À MÃE DE ISABELLA


Numas dessas noites em que todas as TVs exploram um mesmo assunto, ao chegar em casa, cansado do trabalho, sentei-me na poltrona da sala para ver o noticiário. Meu filho desenhava algo em um papel no chão da sala, ele só tem 5 anos. Ávido ele veio me mostrar o que fazia. A princípio não entendi, as cores frias dos lápis de cor azul se confundiam com o verde e também com o grafite do desenho. Perguntei por que o azul era tão forte, ele me disse por que era noite. Ao interpretar melhor, vi que desenhara uma menina caindo pedindo por socorro, um prédio onde se via uma janela, e dela um par de braços. A janela está iluminada, mas não há o rosto do dono dos braços. Mais uma vez Perguntei o porquê, e ele me disse que havia só os braços porque ninguém viu quem jogou a menina. Mas então filho - disse - porque fez esse desenho, e ele me falou “pai, não pode maltratar as crianças”. Aquilo me fez abraçá-lo e despertou em mim um calafrio que me arrepiou. Como explicar que ela havia sido atirada pelo próprio pai.
Como explicar que ali, não morrera só a criança, mas também o coração dilacerado de uma mãe?
E o que dizer do sentimento de revolta de um país em comoção?
A que ponto chegamos?
Que homem realmente é um pai que não veja no filho a extensão de si mesmo?
Meu Deus! Até as crianças sabem que o mal está em todo lugar, até dentro de casa. A tragédia de Isabela Nardoni mexeu com todos, e no afã do resultado do julgamento, os canais de TV noticiavam a todo o momento, de forma que não se podia evitar que uma hora ou outra, as crianças tomassem conhecimento.
Não dá para ocultar de nossos filhos a cruel realidade do mundo e, ali, abraçado ao meu pequeno João, chorei.
Isabella, Gabriela, João Hélio, os irmãos João Vitor e Igor e, tantas outras crianças que podiam estar aqui, sorrindo, vivendo e, no entanto, se foram bruscamente, talvez, para nos fazer refletir, mesmo que não entendamos, sobre um paradoxo da vida humana - quem de fato somos nós?