quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

PRIMEIROS PASSOS NA LEITURA



Daqueles dias, a procurar na memória lembranças nítidas que marcaram as minhas primeiras experiências com as letras, escapa-me muito do que foi vivido, no entanto, alguns momentos ainda estão bem claros.

Lembro-me dos barulhos noturnos, grilos, cigarras e vez por outra, o coaxar dos sapos numa sinfonia que davam à noite um sentido maior do que as de hoje em dia. No céu, a escuridão parecia fazer as estrelas brilharem mais intensamente, como que numa ânsia de chegarem-se mais perto de nós, em meio a este cenário, ficava sentado na fria calçada calcada por tijolos crus, a admirar a lua, imaginando e procurando desvendar a figura de São Jorge lutando contra o dragão, todos diziam que ele morava lá. Perdia-me nesses pensamentos aguardando a hora em que minha mãe chamaria para passar a lição, ela fazia isso todas as noites, um a um com todos os irmãos. Aqueles que terminavam antes de mim, revisavam mais uma vez a lição, agora, para não mais ocupar o lugar à mesa, iam para debaixo de um poste de iluminação pública na poeirenta estrada de piçarra (donde se originou o nome do bairro) a meio quarteirão de casa, onde a lâmpada muito alta, também exigia muito da visão. Meu Deus, quantas noites se seguiram tão iguais aquela.

Sentava-me num tamborete a um canto da mesa, livro, caderno e o lápis preto com sua borracha branca apontada na cabeça, o cheiro da fumaça invadia-me as narinas, aquela fumaça preta que fluía da chama laranja da velha lamparina a querosene, Ah!, aquele cheiro parece-me tão distante e ao mesmo tempo tão presente. A tênue luz ofuscava-me os olhos que ficavam quase a lacrimejar.

Do outro lado da mesa, minha mãe a costurar os botões das batas dos médicos da LBA(Legião Brasileira de Assistência), falava-me com sua voz firme, mas serena, como alguém que não conhecera o cansaço “E juntando essas duas sílabas, nós temos o que Antônio?”, sua imagem meio que na penumbra, tinha apenas um dos lados do rosto iluminado, no entanto, mesmo de cabeça baixa, parecia estar atenta aos meus gestos, até quando distraía-me a olhar para a parede hipnotizado pela dança das sombras, orquestrada pelo movimentos do fogo da lamparina, mais uma vez indagava-me, despertando-me, “Heim Antônio?” Respondia-lhe balbuciando com medo de errar, num tom de voz bem baixo, dizia: “bo-la!” e assim continuava meio que sonolento e com os olhos ardendo, meio por causa da fumaça, meio por causa do sono, era tanto, que as letras pareciam querer saltar das páginas, embaladas pelo frenesi louco da chama. Não via direito o que escrevia, obstruído pela sombra de minha própria mão. Confesso que as lições do a, bê, cê eram mais interessantes que as contas da tabuada, pois nestas, a cada erro, levava uma reguada na cabeça, e por aqueles dias, as réguas eram de madeira. Enfim ela dizia o que eu esperava ouvir, “Tá bom por hoje, hora de lavar os pés, escovar os dentes, beber água, urinar, rezar e dormir.”

Lá íamos nós esfregar os pés na calçada, cada um para isso, tinha direito a um litro d’água, um litro desses de lata de óleo Dureino.

Sempre acordava com o canto do galo, aquele canto preguiçoso que cola a gente no fundo da rede, onde um certo friozinho gostoso nos diz ser aquela a melhor hora do sono, enfim, mamãe tratava de lembrar-nos de nossa obrigação, um banho, café com leite e cuscuz, revisão de material e estávamos prontos para sair. Ela despedia-se de nós sempre com a mesma recomendação: tomarmos cuidado ao atravessar as ruas, dali seguia com a trouxa de roupa na cabeça, caminharia doze ou treze quarteirões para entregar os lençóis, as toalhas e as batas do médicos, todas as peças, impecavelmente lavadas e engomadas.

Assim, todos os dias, as sete e meia da manhã, limpinhos e fardados, íamos para a escola a uns três quarteirões de casa, não tínhamos vergonha de nossa farda, ao contrário, orgulhávamo-nos dela, a gasta camisa de tergal branco, apesar dos muitos remendos na altura dos ombros, o calção de mescla azul e uma velha conga surrada, imprimiu-me marcas profundas de saudades. Sim, saudades daqueles tempos em que se aprendia com dificuldades, mas é exatamente aí onde está o maior tesouro, aprendi o sentido da palavra valor, e foi este sentimento que motivou-me a vencer os obstáculos, esta lição, tento praticar todos os dias até hoje.

Tenho muito a agradecer a Deus e à dona Marina, minha mãe, ela sim foi pai e mãe para nove filhos, isso porque seu espírito era incansável, todas as noites ali, mesmo com sua pouca instrução escolar, ela só cursara o ginasial, mas tinha uma letra cursiva impecável.

Mamãe fazia a contabilidade dos gastos num desses cadernos que ela comprava aos maços lá na FENAME (Fundação Nacional de Material Escolar), isso para planejar o que podia ou não ser dispensado como gasto supérfluo, as fotos de final de ano na escola, por exemplo. Destes tempos restou apenas uma, ela a guarda até hoje, é uma das poucas fotografias de minha infância.

Antigamente, o grau de dificuldade que era ser uma mulher sozinha, sem emprego fixo e ter que sustentar um lar, era muito grande, talvez até maior do que hoje em dia, se levarmos em conta o universo reduzido de trabalho para uma pessoa sem muita ou quase nenhuma qualificação, podia até escassear a comida, mas respeito, dedicação, zelo e carinho, nunca faltaram.

O ofício de lavadeira é muito duro, sabendo disto, todos cooperávamos com ela, um transportava água do tanque até o giral, outro torcia as peças mais pesadas, um outro ajudava a levar a bacia com as peças lavadas para o varal ou as ensaboadas para o quarador, e à tarde acendíamos o fogo para colocar brasa no ferro de engomar, aquele ferro pesado onde vez por outra ela colocava ao chão para ser abanado e abastecido com mais carvão, isso ia das duas da tarde até as seis da noite, só descansava no Domingo, dia da missa.

Graças a minha mãe, numa bela manhã, ao oito anos de idade, me vi pronunciando as primeiras palavras lidas de um livro, os olhos percorriam maravilhados aquelas letras quase que incrédulos ao descobrir que aquela porção de sílabas juntas faziam sentido, sim, era a manhã mais maravilhosa até então, jamais esqueci o nome da autora do livro “Giggia Toledo”. O enredo contava as viagens da arraia Mantinha que em seu dorso carregava um menino e uma menina, a percorrerem os Estados do Brasil numa verdadeira aula de civismo, história e geografia. Bons e felizes dias aqueles, o fascínio pelo domínio desta nova faculdade era indescritível. Às vezes custava a acreditar que realmente estava lendo, todo um lindo universo colocava-se diante de mim para ser descoberto.

Deste dia em diante tinha mais prazer de ir a escola, aquela velha escola ainda está lá, de pé, testemunha de um mundo que não voltará, santa escola pública, seu nome Unidade Escolar São Paulo, bem no cruzamento da Miguel Rosa com Des. Pires de Castro, na Piçarra.

A descoberta da leitura é o que me motivou a chegar até aqui, não há pagas que possam compensar minha mãe por isso, ela é uma dessas milhares de mulheres anônimas que buscam dotar seus filhos dos verdadeiros valores morais e éticos, transformando-os em pessoas íntegras. Hoje o tempo passou e encarregou-se de tudo, branquejar os cabelos de mamãe, aposentar-lhe o pesado ferro, tornar a casa cada vez mais vazia e maior para ela, encarregou-se também de poeirar, amarelar e destruir os velhos livros, mas o propósito a que eles se destinavam ainda permanecem e hão de permanecer vivos em mim, tal qual o espírito guerreiro e inquebrável de minha mãe.

Os irmãos, alguns foram-se mundo afora, mas ligam e a visitam a cada ano, alguns que aqui ficaram, sempre estão por perto durante a semana e aos domingos, mas, sua companhia mais constante, são seus santos, seu rosário, suas orações e as novelas de TV. Diversão muito diferente dos livros de faroeste de bolso que lia antigamente e as novelas de rádio que ela sempre gostara de ouvir no rádio da vizinha.

Um outro dia fui dormir em sua casa, casa de minha infância, parecia ouvir no quintal, debaixo do velho umbuzeiro, a algazarra das brincadeiras de meus irmãos. A velha casa ficou pequena demais para mim e minhas lembranças, mas minha mãe sempre procura agradar, parecendo querer nos dar hoje tudo o que não podiamos ter no passado, um suco, uma água gelada, uma fruta. As vezes paro e fico ali sentado em uma cadeira a vê-la fazer um bolo, ela sempre o divide em pedaços, um para cada um dos filhos que costumeiramente a visita. Isso me traz muitas recordações. Mas o mundo segue, uma pena não podermos voltar em algumas coisas, se assim fosse, lhe daria mais abraços, lhe diria mais vezes o quanto ela é importante para mim, ficariam mais tempo a seu lado e faria mais leitura para ela.

Pareço ainda ouvir-lhe dizer: “E agora Antônio meu filho, o que vem depois?”, agora posso responder-lhe com convicção: “O futuro minha mãe, o futuro recheado de lembranças vivas do passado e a expectativa de passar para meus filhos as lições que você me ensinou.”

2 comentários:

Non je ne regrette rien: Ediney Santana disse...

"A descoberta da leitura é o que me motivou a chegar até aqui,"
vale para mim tamém isso,
se não fosse livros minha vida estaria bastante ruim.
Valei pelas aulas

Ricardo Micka disse...

A história do menino e da Arraia Mantinha eu lembro até hoje, acho que li um capítulo dela que estava em minha cartilha, ficava imaginando uma vida que era bem diferente da minha na época, grandes lembranças !!!!