quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

PAPAI NOEL DA ALMA


Todos o anos o natal nos faz sentir que somos mais maleáveis e tolerantes, que um espírito mais brando e menos irritado aflora dentro de nós. É um tempo diferente, tempo de presentes, sorrisos, amigos-ocultos, ceias, pintura da casa, 13º salário e de encontro com velhos amigos. Tudo é festa, talvez essa seja uma maneira de dizermos pra nós mesmos que o fim do ano é uma momento para se refazer as energias e buscar um pouco daquela essência que  faz com que estejamos em estado de graça. 
No entanto, sabemos que por mais que não queiramos, vamos cometer erros ou pelo menos, novos erros. Usamos a justificativa de que somos humanos e por isso erramos. Isso pode acontecer, mas por trás do erro há sempre que se aprender uma lição, ou então, de nada adianta.
mas o natal traz a chance para se fazer tudo certo. É no natal que passamos a olhar com um pouco mais de brandura, e porque não dizer ternura, para aqueles que são menos favorecidos. Não que durante o resto do ano sejamos cegos para outro, mas que parece existir mesmo algo que nos toca a alma no período natalino, lá isso é verdade.
Talvez seja nossa outra metade, aquela espiritual, que deixamos muitas vezes guardada no porão de nossa má vontade.

Pois que o natal seja a porta de entrada para um novo tempo, tempo de vida para cada um, tempo de olhar para as pessoas e não apenas para si, tempo de cooperação, tempo de saber presenciar as coisas boas que nos cercam, tempo de ser de fato, mais humano.

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

ETERNAMENTE JOVEM


Hoje, caminhando, como faço todos os dias, cedinho pela manhã, passei por jovens, moças e rapazes que se dirigiam a escola, e vi em seus sorrisos, em sua alegria e em seu frescor, uma áurea que já tive um dia. Não sei porque fui arrebatado a lembrar de como eu era por esse tempo - sonhador, disposto, para mim tudo era um desafio a ser vencido, havia mais vida em minhas atitudes, havia mais contentamento. Contemplava o chão que estava a minha frente dando passos mais largos do que poderia alcançar, vivendo o presente, não havia ainda o desejo de ganhar o mundo ou planejar o futuro. As obrigações eram as de casa e simplesmente estudar, não mais que isso.
Meus dias passaram com uma rapidez que só notamos quando viramos adultos, mas ainda guardo alguma coisa daquele tempo, só não vejo como empregá-la nos dias atuais.
Ah! A juventude é algo realmente maravilhoso, pois a cada dia você descobre coisas novas e não tem ainda a desilusão da realidade catastrófica que a vida adulta impões a seus sonhos.
Senti o perfume dos verdes anos da adolescência e fiz o resto do meu trajeto, olhando as mesmas paisagens de todos os dias por um olhar juvenil, um olhar renovado, mas ainda assim, conectado com o meu mundo cheio de responsabilidades e defeitos.
Não é você que mata o jovem dentro de si, o tempo é que o muda e te transforma em outro ser, que passa a podar e direcionar as atitudes de seus filhos exatamente como seus pais faziam com você.
Quero ter e dar mais tempo para meus filhos, ouvir suas histórias, seu dia a dia na escola, suas aspirações e seus sonhos. Não tive nada disso, por isso, para mim é crucial que isto não lhes falte, para que eles sintam que seu pai está com eles, e que minha presença lhes seja agradável. Que me vejam como amigo e que nossa relação possa lhes dar segurança, enquanto eles me renovam as forças para que eu me sinta cada dia mais jovem, pois assim sendo, posso compreendê-los melhor.
O corpo e a mente envelheceram, mas há certas coisas que no coração nunca mudam, a alegria de ter um espírito eternamente jovem é uma delas.

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

UM SONHO SONHADO SOZINHO NÃO VIRA REALIDADE


Chega de ilusões, de viver no passado esperando que um milagre altere o presente e se faça dele um futuro. As pessoas, por assim dizer, costumam acomodar-se na mesquinhez de suas vidinhas aguardando dias melhores ou quem sabe que a oportunidade (ou sorte) venha bater à sua porta.
Cansei dos medos, dos temores infundados. Não me arrependo por ter dado a você o melhor de mim, embora, o retorno tenha sido praticamente nada. Descobri que o meu "eu" não foi suficiente para o seu "eu". Aguardei ansioso uma atitude madura, pessoal (passional), um posicionamento só seu, sem a inferência de terceiros, os mesmos que uma dia serão apenas lembranças no inexorável curso da vida. Lembranças guardadas num baú de memórias remoídas todas as vezes que você pensar que podia ter seguidos outros novos caminhos e não o fez.
Hoje, nada é seguro, nada é certo, exceto uma coisa - o tempo que passa. Às vezes é preciso ousar, cometer erros, fazer escolhas, pois nem todas as escolhas são ruins, mesmo as erradas, pois é com elas que aprendemos novas lições. Se sempre optarmos pelo certo, então como erraríamos? Com os erros é que aprendemos a ter experiência. Com certeza, se você chegar a ler isso, entenderá tudo ou não entenderá nada. O "amor", o "bem querer", o "carinho"ou mesmo a "paixão" precisam ser alimentados, nem que seja com pequenas coisas, como um "olá", uma lembrança, uma mensagem, um telefonema ou uma outra surpresa qualquer para poder continuar existindo. Mas, quando tudo que resta é o desprezo e a indiferença, então culpe apenas a você por estar cravando, na tênue vida que luta para se manter, o último cravo.
Raiva - não tenho nenhuma, a única coisa que me assola é uma tristeza imensa quando penso em nós. Uma angústia por saber que você é a pessoa certa em um tempo ou mundo, errado. Um dia você vai ser sozinha, neste dia pesará sobre você as escolhas apontadas por outros, outros que não viverão sua vida por você. Não, não me arrependo dos meus erros, das minhas escolhas, foi eu que as fiz, ninguém as tomou por mim. Ousei sonhar por nós, mas para que alimentar um sonho que você abandonou? Não dá para viver de ilusão e, no fundo, acho que você nunca sonhou com a gente de verdade.

Como diz a música:  

Eu acreditei demais no amor
De corpo, alma me entreguei sem pensar
Foi passando o tempo e eu fiquei
Mais uma vez sozinho, sem ninguém
Não, não acredito mais no amor
Eu ouvi promessas de alguém
E me apaixonei
Tenho as marcas da desilusão
Tenho que ter dó de mim
E do meu coração



sexta-feira, 24 de outubro de 2014

VOCÊ JÁ NÃO ME É COMO ERA ANTES

Uma vez me disseram que crianças podem ser cruéis, isso quando fazem algo que pode ou não ser consciente. As vezes adultos parecem ser crianças nesse sentido, apesar de que acho atos vis, como premeditados e, não inconsequentes. Acredito, que o rancor ou a fuga de determinadas situações deveriam ocorrer sem ter que se mascarar com falsas verdades (inverdades = mentiras) aquilo que realmente nos aflige. No caso que envolve sentimentos, o simples ato de querer mostrar que você tem outra pessoa, numa aparente e forçosa felicidade de fachada, sem dizer claramente, bem assim, olhando nos olhos, que você já não gosta mais, pra mim é sinal de fraqueza e de grande covardia.
Mas quando se vive pelas regras alheias, nós não somos nós e nem vivemos nossos ideais, são os ideais dos outros. 
O mundo só se torna melhor quando se transgride o proibido, porque só tem sentido em ser proibido para poder ser transgredido. Viver pelas regras é tedioso, a emoção de ser diferente só vem quando tomamos a pílula azul e então abrimos nosso olhos para adentrar num universo que sempre existiu e que cegamente nós ignoramos. Ninguém, absolutamente ninguém deveria reger o destino de outra ditando suas próprias convicções morais. O código de conduta de cada um deve ser somente seu, e é por assim dizer, que o mundo é diversificado na natureza humana.
Desculpe meu amor, se o seu jeito não me compreende,  a verdade é que não parou de chover nos seus primeiros erros.
Da minha mãe eu herdaria a dignidade, porque ela é guerreira, mas não queria ter sua vida, suas convicções e condutas foram suas escolhas e isso pertencem a ela, não a mim. Meus irmãos, cada um segue sua vida, mas não me ditam regras, sabem que eu mesmo faço o meu caminho, mas mesmo em minhas escolhas, certas ou erradas sempre me apoiaram.
A vida é assim, não posso viver a vida de outro, faço a minha própria, tenho minhas escolhas, mas a seu contrário, posso dizer, fiz porque quis, e não porque pediram ou embutiram em minha cabeça que eu tinha que rezar numa cartilha que outro escreveu. Deixa o tempo passar, e o meu coração vai sorrir.
Como diz a letra " use a inteligência uma vez só, não dê ouvidos a maldade alheia, e creia, sua estupidez não lhe deixa ver que eu te amo".

terça-feira, 30 de setembro de 2014

NÃO ADIANTA

Mesmo que eu te desse todas as coisas do mundo, de nada ia adiantar. E você nem precisava me amar, mas até isso não é sua culpa, eu foi quem não soube achar o caminho pro seu coração, se é que seu coração tem uma caminho ou a pergunta seria, você tem um coração?
Em algum ponto da estrada, parei de acreditar. Deixei que as coisas acontecessem, o tempo passou e eu descobri que me tornei obsoleto. Na real, como e do jeito que as coisas e as pessoas estão, a aventura tomou o lugar do amor. Mas o que é o amor nos dias de hoje? Acho que ele não se transformou em outra coisa, apenas o maquiaram em sensações superficiais. O sentimento foi corrompido, mas eu acredito que bem no fundo de cada ser humano, ele está lá. As pessoas se deixam seduzir facilmente pelo brilho momentâneo que as vezes fascina porque é fulgar, mas do jeito que brilha instantaneamente - apaga-se. Porém, as pedras brutas, ao serem lapidadas brilham permanentemente.
O que você é de verdade, um flash ou uma jóia esperando ser lapidada?

domingo, 21 de setembro de 2014

A MÃO DA CONSCIÊNCIA

Às vezes a vida nos prega peças. Erramos, somos passíveis disso, por fraqueza, por displicência, ignorância, pecado ou falha de caráter. Sim, cometemos falhas, em alguns casos, irreversíveis e irreparáveis. Contudo, há pessoas que sempre nos surpreendem, seja por sua generosidade seja por seus exemplos, e acabam por ver em nossas fraquezas e atitudes uma forma de nos corrigir e ensinar alguma coisa que termina por fazer de nós indivíduos melhores.
Tenho meus erros, mas mesmo que à duras penas, aprendo com eles. Agradeço a Deus pela existência de pessoas que são luzes em nossas vidas e que em momentos de trevas nos chamam a razão.
Elas são o que podemos dizer de certo modo "a mão da consciência".
Sinto-me bem quando posso contar com alguém assim, pois em algum lugar uma força maior a guia, e em ela sendo guia, certamente com sua ajuda estarei caminhando em direção à luz da razão.
Obrigado!

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

SENTADO NA PRAÇA, VI UMA CRIANÇA


Sentado na praça vi uma criança
Ela corria e pulava
Pulava e cantava
Caia na grama
E nela rolava.

Sentado na praça eu vi uma criança
Sorria feliz
Feliz se encantava
Brincando com pombos
alegre saltava.

Sentado na praça eu vi uma criança
Seu olhar brilhava
Brilhava e vibrava
Inocente e sutil
Ao meu lado chegava.

Sentado na praça eu vi uma criança
Alheia e serena
Serena dizia
Que  quando crescesse
Alegre seria.

Sentado na praça eu vi uma criança
Me olhou com ternura
Ternura me deu
Aquela criança
Um dia fui eu.

sábado, 6 de setembro de 2014

ECOS DA TUMBA


A morte, temida última viagem
Com o Barqueiro do rio de água escura
Passagem de vida a outras paragens
Em sóbrio esquife de madeira dura.

Foi Anúbis “o justo” quem fez a balança
Que pesa a medida de tua razão
Se ao peso irreal tua vida alcança
Ao demônio é lançado o teu coração.

Não subas no barco sem antes levar
O preço que vale a tua viagem
Sem ouro o barqueiro não deixa passar
E o rio da morte te fecha a passagem.

A almas penadas não há paraíso
Só vôo noturno pelo negro céu
Vagando no limbo o espírito perdido
Gritando sozinho em seu mausoléu.

Na tumba far-se-á um silêncio nefasto
E o aroma das flores será podridão
Das vistas da vida te será herdado
O frio silêncio da escuridão.

Um corvo medonho a noite virá
Na sombria lápide fará sua festa
Tu veio do pó e ao pó voltará
Teu corpo aos germes é só o que resta.

Um sussurro ao vento nos será ouvido
Nas sombras graúnas do final do dia
Um choro profundo como um gemido
Num um apelo extremo de tal agonia.

São ecos da tumba, a tua morada
A morada dos deuses é muito além
Se Hórus em vida de ti se agrada
No templo dos deuses estarás também

A travessia do rio tem o seu mistério
Porém é na terra que teu corpo jaz
O rio da morte é o cemitério
Onde hoje teus restos repousam em paz.

terça-feira, 2 de setembro de 2014

MORTO-VIVO

Sinto o mundo esvair-se ante meus olhos
mesmo contigo estou na solidão
no quarto, um ar funesto gela-me os ossos
e já não sinto mais o calor de tua mão

Agora as trevas envolvem meu ser
e por mais claridade procuro buscar
não há mais nada a se fazer
que não cerrar os olhos e descansar

Vejo claro o limiar da morte
e vago entre a loucura e a sanidade
partir da vida dói, é um corte
tanto faz viver ou morrer na eternidade

Mas que asco meu corpo reijeita agora,
que terror é este que aflora em mim?
e mesmo em minha última hora
os vermes me comem, fazendo o festim

Malditos vocês que me encarceraram
numa tumba escura de eterno mistério
que no meu enterro sorriram e choraram
e esqueceram a mim em algum cemitério

A negridão da morte é silêncio eterno
embora vague minh'alma de ti bem perto
não me vês nessa danação, pois morri,
não sei se para o céu ou para o inferno.

Fica o aviso para quem está vivo
viva a vida com toda intensidade
porque o caminho que agora sigo
são espinhos que ferem, chamados saudade

domingo, 31 de agosto de 2014

A PISCINA

Estes muros que separam as casas, que vão isolando uma das outras em seus mundos de universos particulares, cada um com vida própria, com seus dilemas e suas contradições, testemunham minha história desde o início.

No meu mundo, aqui estou eu, sentado a beira da piscina, em uma noite sem estrelas, sem grilos cantando. Não sopra uma brisa, tudo está calmo.
Apenas a piscina e eu. Duas existências interligadas pela tênue luz na água, duas formas de existir unidas pelo mesmo reflexo, ela pelo que consegue captar, eu por ser apenas uma sombra do que já fui um dia.
Lembro-me, de quantas horas já passamos juntos. Inúmeras histórias vividas à sua volta.
Pudera voltar no tempo, quem me dera. Perceberia que há mais do que lembranças, mas do que estas águas paradas querem mostrar, muito mais do que pode ser presenciado por meus olhos. Voltar no tempo, seria bom.

A piscina - me lembro dela, porque já nasci com ela. Sua água envolvente me é familiar. Me tranquilizava.

Flashback:
Bebê em uma bóia é ensinado pelo pai a nadar dentro da piscina, ele ri, o pai mergulha com ele, o joga para cima, o abraça, o bebê confia no pai.
Ele olha aquele homem e sabe que está seguro.

Tempo presente:
Estar seguro. Hoje, não sei se isto é possível. No passado, quantas vezes sem sono fui para o quarto de minha mãe em busca de alento, mas nem ela e nem meu pai estavam lá. Ouvi gemidos, não entendo, fui para fora seguindo os sons, e na piscina iluminada pelas luzes vi meu pai e minha mãe, eles estavam nus, envolvido num frenesi de movimentos.

Fazer sexo na piscina -  nunca poderia entender naquela idade, unir as emoções do corpo com a expressão pura da água. Algo incompreensível, mas ainda assim, possível. Não os interrompi, apenas fiquei ali, parado na penumbra, olhando. Sentia em meu intimo que não deveria estar ali, voltei para o quarto.

Sim mas houveram outros momentos, momentos felizes, quando a piscina se enchia de vida, meus amigos de escola vinham, brincavam, pulavam do trampolim, jogavam água em quem estava fora, e quando a mamãe chamava, todos corriam para o lanche.
As águas agitadas da piscina ficavam calmas de novo.

Lembro-me do Zé, sim - o Zé, ele era uma garoto pobre, filho da empregada, era meu amigo, ficava horas dentro da piscina. Eu, geralmente sentado a uma mesa, estudava. As vezes me perguntava em pensamento porque ele não desbotava de tanto ficar na água? Ele sempre falava que se tivesse uma piscina daquelas em casa, não sairia de dentro dela nunca.
Compreensível. Quem na periferia podia ter uma piscina com aquela? Ainda assim, mesmo sendo pobre, o Zé parecia ser muito mais feliz do que eu.
Havia dias em que acordava, ia até a piscina e encontrava o Jair, ele era o sujeito que limpava a piscina.
_Bom dia! – dizia ele.
_Oi Jair! – respondia.
E ele com aquele limpador vasculhava a água em busca de alguma folha que por ventura caísse na piscina.
_Tá muito calor hoje, não acha não?
_Cê tá com calor Jair?
_E muito!
_Então banha aí! - empurrei ele da borda da piscina.
Foi água para todo lado, o pobre do Jair saiu todo encharcado da piscina e deu de cara com meu pai.
Papai lhe deu uma bronca, dizendo que ele estava ali para trabalhar e não para se divertir. Ao perguntar a Jair que aconteceu, ele me salvou, disse que tropeçou e caiu.
Depois pedi desculpas ao Jair, mas ele não se zangou, disse que até foi bom, pois há muito tempo tinha vontade de mergulhar na piscina. Era muito gente boa esse Jair.

Uma vez, brincando com o Zé na piscina, o pé dele pegou no meu rosto, e eu não consegui me mexer, acho que desmaiei, apenas fechei os olhos e afundei, quando consegui abrir os olhos, uma mão me agarrou o pulso e me puxou para fora, santo Jair - me salvando mais uma vez.
O Zé tomou uma bronca da mãe dele, e nunca mais voltou a brincar na piscina. Sua presença foi ficando cada vez mais rara, até que sua mãe deixou de trabalhar em nossa casa, depois disso, nunca mais vi o Zé.

lembranças, coisas do passado, hoje é diferente. Agora, água serena reflete meu rosto mostrando a mim mesmo o que sou, meu presente, meu passado.

Uma noite, meu pai chegou nervoso, algo em seu trabalho não correu bem, ele sentou-se à beira da piscina, ele bebia, discutiu com minha mãe, queria ficar sozinho, parece que investiu muito dinheiro em um negócio que não deu certo. Ela veio de lá chorando, quando eu quis ir até ele, ela me segurou pela mão e me trouxe de volta. Meu pai bebeu por toda a noite, ele não podia, e de manhã quando levantou-se, sentiu uma forte dor no peito. Caiu, o socorro não chegou a tempo, minha mãe disse que foi o coração. E foi a última vez que o vi com vida, ali, na beira da piscina.

A piscina nunca mais foi a mesma, sem ele, os amigos, os domingos já não eram os mesmos. Muitas vezes chegava a olhar para ela naqueles dias cinzentos de céu nublado. A indiferença reinou por um tempo. Ela esteve abandonada, mas aos poucos a vida foi voltando ao normal.
(Leve sorriso, com uma aceno negativo de cabeça) - engraçado falar de vida normal, como se nossas vidas fossem normais. Toda a existência é infestada de manifestações de medo, dor, ressentimento e angústia.

Depois da morte de meu pai, a única coisa que nos restou foi a casa, minha mãe procurou mostrar-se forte, mas ela não tinha mais forças, mergulhou numa depressão sem fim, entupia-se de remédios, drogas para lhe tirar da realidade. Sua depressão a levou a uma overdose, aquele foi outro ponto de ruptura, então eu me vi sozinho no mundo.
            Subi a seu quarto, um vazio preenchia todo o ar. Havia fotos do meu pai, fotos de momentos felizes de nossas vidas, estavam espalhadas em sua escrivaninha próxima a janela, talvez, algum lapso de tempo que a fazia estar entre a felicidade vivida e a angústia de suas últimas horas.
            Uma rajada de vento repentina invadiu o quarto espalhando as fotografias,  uma delas escapou pela janela e caiu levemente nas águas da  piscina.
Desci, fui apanhá-la, era uma foto, onde nós, os três, posávamos à beira da piscina.
Mergulhei numa amargura indescritível, tal qual meu pai, passei a beber. Deixei-me abater, e já não tinha ânimo para a vida. Num ato de auto-compaixão deixe-me isolar do mundo e desci ao mais baixo grau de minha própria sanidade.

Tempo presente:
Agora aqui estamos nós, minhas lembranças, minhas angústias a piscina e eu.
Me pergunto se minha existência faz sentido. Queria poder me sentir vivo. Talvez esse sentido, na situação em que me encontro, não me seja  mais possível.
Agora entro na piscina - nestas águas onde vivi muito da minha vida - deixo que elas me abracem, me envolvam e me levem.
De olhos abertos afundo lentamente.

Jair já não está aqui para me salvar. fecho os olhos. durmo.

Este muros que separam as casas, que vão isolando uma das outras em mundos de universos particulares, cada um com vida própria, com seus dilemas e suas contradições  testemunharam minha história, até o fim.

Pádua Carvalho