domingo, 31 de agosto de 2014

A PISCINA

Estes muros que separam as casas, que vão isolando uma das outras em seus mundos de universos particulares, cada um com vida própria, com seus dilemas e suas contradições, testemunham minha história desde o início.

No meu mundo, aqui estou eu, sentado a beira da piscina, em uma noite sem estrelas, sem grilos cantando. Não sopra uma brisa, tudo está calmo.
Apenas a piscina e eu. Duas existências interligadas pela tênue luz na água, duas formas de existir unidas pelo mesmo reflexo, ela pelo que consegue captar, eu por ser apenas uma sombra do que já fui um dia.
Lembro-me, de quantas horas já passamos juntos. Inúmeras histórias vividas à sua volta.
Pudera voltar no tempo, quem me dera. Perceberia que há mais do que lembranças, mas do que estas águas paradas querem mostrar, muito mais do que pode ser presenciado por meus olhos. Voltar no tempo, seria bom.

A piscina - me lembro dela, porque já nasci com ela. Sua água envolvente me é familiar. Me tranquilizava.

Flashback:
Bebê em uma bóia é ensinado pelo pai a nadar dentro da piscina, ele ri, o pai mergulha com ele, o joga para cima, o abraça, o bebê confia no pai.
Ele olha aquele homem e sabe que está seguro.

Tempo presente:
Estar seguro. Hoje, não sei se isto é possível. No passado, quantas vezes sem sono fui para o quarto de minha mãe em busca de alento, mas nem ela e nem meu pai estavam lá. Ouvi gemidos, não entendo, fui para fora seguindo os sons, e na piscina iluminada pelas luzes vi meu pai e minha mãe, eles estavam nus, envolvido num frenesi de movimentos.

Fazer sexo na piscina -  nunca poderia entender naquela idade, unir as emoções do corpo com a expressão pura da água. Algo incompreensível, mas ainda assim, possível. Não os interrompi, apenas fiquei ali, parado na penumbra, olhando. Sentia em meu intimo que não deveria estar ali, voltei para o quarto.

Sim mas houveram outros momentos, momentos felizes, quando a piscina se enchia de vida, meus amigos de escola vinham, brincavam, pulavam do trampolim, jogavam água em quem estava fora, e quando a mamãe chamava, todos corriam para o lanche.
As águas agitadas da piscina ficavam calmas de novo.

Lembro-me do Zé, sim - o Zé, ele era uma garoto pobre, filho da empregada, era meu amigo, ficava horas dentro da piscina. Eu, geralmente sentado a uma mesa, estudava. As vezes me perguntava em pensamento porque ele não desbotava de tanto ficar na água? Ele sempre falava que se tivesse uma piscina daquelas em casa, não sairia de dentro dela nunca.
Compreensível. Quem na periferia podia ter uma piscina com aquela? Ainda assim, mesmo sendo pobre, o Zé parecia ser muito mais feliz do que eu.
Havia dias em que acordava, ia até a piscina e encontrava o Jair, ele era o sujeito que limpava a piscina.
_Bom dia! – dizia ele.
_Oi Jair! – respondia.
E ele com aquele limpador vasculhava a água em busca de alguma folha que por ventura caísse na piscina.
_Tá muito calor hoje, não acha não?
_Cê tá com calor Jair?
_E muito!
_Então banha aí! - empurrei ele da borda da piscina.
Foi água para todo lado, o pobre do Jair saiu todo encharcado da piscina e deu de cara com meu pai.
Papai lhe deu uma bronca, dizendo que ele estava ali para trabalhar e não para se divertir. Ao perguntar a Jair que aconteceu, ele me salvou, disse que tropeçou e caiu.
Depois pedi desculpas ao Jair, mas ele não se zangou, disse que até foi bom, pois há muito tempo tinha vontade de mergulhar na piscina. Era muito gente boa esse Jair.

Uma vez, brincando com o Zé na piscina, o pé dele pegou no meu rosto, e eu não consegui me mexer, acho que desmaiei, apenas fechei os olhos e afundei, quando consegui abrir os olhos, uma mão me agarrou o pulso e me puxou para fora, santo Jair - me salvando mais uma vez.
O Zé tomou uma bronca da mãe dele, e nunca mais voltou a brincar na piscina. Sua presença foi ficando cada vez mais rara, até que sua mãe deixou de trabalhar em nossa casa, depois disso, nunca mais vi o Zé.

lembranças, coisas do passado, hoje é diferente. Agora, água serena reflete meu rosto mostrando a mim mesmo o que sou, meu presente, meu passado.

Uma noite, meu pai chegou nervoso, algo em seu trabalho não correu bem, ele sentou-se à beira da piscina, ele bebia, discutiu com minha mãe, queria ficar sozinho, parece que investiu muito dinheiro em um negócio que não deu certo. Ela veio de lá chorando, quando eu quis ir até ele, ela me segurou pela mão e me trouxe de volta. Meu pai bebeu por toda a noite, ele não podia, e de manhã quando levantou-se, sentiu uma forte dor no peito. Caiu, o socorro não chegou a tempo, minha mãe disse que foi o coração. E foi a última vez que o vi com vida, ali, na beira da piscina.

A piscina nunca mais foi a mesma, sem ele, os amigos, os domingos já não eram os mesmos. Muitas vezes chegava a olhar para ela naqueles dias cinzentos de céu nublado. A indiferença reinou por um tempo. Ela esteve abandonada, mas aos poucos a vida foi voltando ao normal.
(Leve sorriso, com uma aceno negativo de cabeça) - engraçado falar de vida normal, como se nossas vidas fossem normais. Toda a existência é infestada de manifestações de medo, dor, ressentimento e angústia.

Depois da morte de meu pai, a única coisa que nos restou foi a casa, minha mãe procurou mostrar-se forte, mas ela não tinha mais forças, mergulhou numa depressão sem fim, entupia-se de remédios, drogas para lhe tirar da realidade. Sua depressão a levou a uma overdose, aquele foi outro ponto de ruptura, então eu me vi sozinho no mundo.
            Subi a seu quarto, um vazio preenchia todo o ar. Havia fotos do meu pai, fotos de momentos felizes de nossas vidas, estavam espalhadas em sua escrivaninha próxima a janela, talvez, algum lapso de tempo que a fazia estar entre a felicidade vivida e a angústia de suas últimas horas.
            Uma rajada de vento repentina invadiu o quarto espalhando as fotografias,  uma delas escapou pela janela e caiu levemente nas águas da  piscina.
Desci, fui apanhá-la, era uma foto, onde nós, os três, posávamos à beira da piscina.
Mergulhei numa amargura indescritível, tal qual meu pai, passei a beber. Deixei-me abater, e já não tinha ânimo para a vida. Num ato de auto-compaixão deixe-me isolar do mundo e desci ao mais baixo grau de minha própria sanidade.

Tempo presente:
Agora aqui estamos nós, minhas lembranças, minhas angústias a piscina e eu.
Me pergunto se minha existência faz sentido. Queria poder me sentir vivo. Talvez esse sentido, na situação em que me encontro, não me seja  mais possível.
Agora entro na piscina - nestas águas onde vivi muito da minha vida - deixo que elas me abracem, me envolvam e me levem.
De olhos abertos afundo lentamente.

Jair já não está aqui para me salvar. fecho os olhos. durmo.

Este muros que separam as casas, que vão isolando uma das outras em mundos de universos particulares, cada um com vida própria, com seus dilemas e suas contradições  testemunharam minha história, até o fim.

Pádua Carvalho


sexta-feira, 22 de agosto de 2014

NUM SE PODE

Das lendas urbanas de Teresina, a "Num se pode" conta a história de uma mulher desiludida que percorria as ruas da cidade à noite assustando os homens. Hoje, contada bem assim.



quinta-feira, 14 de agosto de 2014

EXILADO


Desde que caí, parece-me, que neste recém-criado mundo, nada é mais doloroso que não desfrutar da luz original. O sol que esses inferiores desfrutam é apenas um tênue reflexo daquilo para qual nós, os Elohins, fomos destinados.
Agora, as sombras envolvem minhas asas, minha pele desfigura-se de um brilho perolado para um ébano marcado pelas intempéries do tempo - e as mechas douradas de meus cabelos ganharam um negritude mais turva que o véu da noite.
As sombras me acolhem melhor agora, a escuridão me impede de olhar meu horrendo reflexo nas águas cristalinas do riacho que cintila por entre as pedras iluminadas pelo brilho azulado do luar. Meus pensamentos se perdem, mas afloram em um ódio imortal que me corta as veias por ter sido banido.
A marcha na desolação do abismo expõe semblantes tristes e desesperançados dos condenados ao eterno exílio.
Não sou mais um guerreiro, nada mais que um errante condenado ao limbo da existência - pensava ele.
Para quem já viveu entre os luzeiros do céu, o pó deste mundo miserável é um castigo cruel por demais.

Eu, um príncipe - condenado por querer que esses filhos de Hu-Mánia, os malditos humanos fossem extintos da existência.

Das crônicas - Insurreição, as Guerras Celestes

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

SENTENÇA: CULPADO!

Agora, pela frente, meses árduos de trabalho. É desafio, mas ao mesmo tempo você prova a si mesmo que é capaz.
Um resultado que bem no fundo não é pra mim. Quem vai colher os frutos são meus filhos, minha família.
É com o passar do tempo, que a gente compreende o real sentido da vida - fazer os filhos serem mais felizes do que você foi, contudo, nisso você também se torna alguém mais feliz, pois sabe estar de forma positiva dando um sentido para suas ações.
Ando em falta com muitas coisas, com eles, comigo e com meus projetos. Confesso também que andei meio esquecido de meu blog, essa é minha culpa, minha máxima culpa, e pra meia dúzias de amigos que lêem isso aqui, a sentença para minha absolvição é escrever com mais frequência, só isso, já basta.