segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

VOLTAR OUTRA VEZ


Em se tratando da mente humana, há coisas que não dá para explicar ou tentar entender.
E em matéria de sonho, dificilmente lembramos o que sonhamos, mas, o mais incrível é que pela primeira vez acordei e consegui lembrar tudinho. Fiz uma viagem surrealista de volta ao meu passado-futuro, no entanto voltar aos tempos da minha infância não quer dizer necessariamente que novamente tornei a ser criança, não, ei voltei, mas com minha consciência de adulto a reviver os meus tempos de menino. Uma história maluca que resolvi escrever antes que esquecesse e que vou tentar contar aqui.
Não sei porque tudo aconteceu na parte da noite. As imagens começam com homens vestidos em um tipo de uniforme de soldado do inicio do século IXX e que participavam junto com beatas, famílias, inclusive eu e Socorro (ainda em tempo de namoro) de uma celebração na  igreja de São Raimundo Nonato, lá na Piçarra.
Suas roupas eram galantes uniformes brancos, havia certa nobreza em suas posturas, um deles, aí por volta dos seus 40 anos, ostentava bigode e barba bem feito e aparada. A ocasião demonstrava a solenidade da missa e, ao término desta, o tal homem, explicava com propiedade para as pessoas em derredor, sobre as formas arquitetônicas do teto da igreja, detalhando em seu discurso que tais peças não se fazia no Brasil e que tinham vindo da Europa. Eu olhava para o teto e era algo como nunca havia visto, colunas de seustntação em estilo barroco e grandes arcos curvados com pinturas, alhgo assim como a Capela Sistina. O que eles faziam em meu sonho, não sei dizer, não vi nenhuma relação, mas vá lá se entender os sonhos.
O mais estranho é que eu me encontrava na nave lateral da igreja em companhia de Socorro, mas que por causa de seu estado febril, logo a levei para casa.
Minutos depois me vi no lado lateral externo da igreja, onde a paisagem em volta retrocedera em pelo menos 38 anos, fazia-se um silêncio como se fora alta madrugada.
As construções em volta desapareceram dando lugar a imensa praça verde. Muros, bancos, paredes, nada mais havia. Apenas o gramado, as passarelas em chão de terra, além dos inúmeros pés de acácia que a caracterizavam a praça no passado. 
Deus! Parecia tudo tão real. Um "dèja vu", para minha mente sonhante. E o mais  incompreensível, é que por vezes eu interagia com o cenário e em outras não.
Da praça, ouvi uma discussão na rua por trás da igreja, não deixei de perceber, que todas as casas estavam iguais, as árvores, tudo exatamente como era antigamente. A casa de Veridinalva, minha amiga de juventude, com seu muro baixo complementado com ferro decorado.  A rua, hoje de asfalto, chama-se Santa Catarina, mas em minha visão estava nua com seu calçamento feito com pedras cabeçudas.
Me ative ao falatório entre dois amigos que bebiam pela rua, dois boêmios que se desentenderam por causa de uma mulher que vinha em uma bicicleta trazendo um cesto de verduras na garupa. Um deles ainda com o uniforme branco era acusado pelo outro, de ter um caso com sua mulher. Daí começaram a se agredir verbalmente, contudo, um deles, o de uniforme, foi embora, e restou então o marido bêbado e sua mulher, uma morena de cerca de mais de 45 anos, zangada como ela só, não vendia simpatia, apenas o fazia quando gritava pela rua, “olha o cheiro-verde”.
Terminou que os dois saíram a caminhar empurrando a bicicleta e discutindo. Até que em dado momento deixaram a bicicleta ali no chão e desapareceram na escuridão de uma das ruas laterais da igreja. Eu acompanhava tudo de perto, dali em diante, apenas as sombras me faziam companhia, já não havia ninguém na praça, apenas eu. Nesse tempo se podia ficar sozinho até bem tarde da noite, pois não havia facínoras, ladrões ou drogados vagabundeando a espreita, como é nos dias de hoje.
Cheguei perto do local onde haviam deixado a bicicleta e não sei por que montei nela e sai a pedalar. Era uma dessas bicicletas Monark barra circular. Desci pela av. Leônidas Melo em direção a Miguel Rosa, subi pela rua Desembargador Pires de Castro onde passei por alguns garotos montados em suas monaretas modelo tigrão, as tão cobiçadas bicicletas dos meus tempos de garoto. Eles estavam com uma espécie de camisa e boné esverdeado com branco, algo que acredito ser um uniforme promocional de algum produto, creio que suco em pacotinhos plásticos, com o canudinho acoplado, naquele tempo, chamava-se “suquinho”.
Continuei subindo a rua, no cruzamento com a rua Santa Luzia espantei-me, pois no lugar de uma Clínica hoje, estava a antiga e tradicional quitanda do "Manel Flor", xis com a grande casa de esquina que vendia carvão. Na rua, muitos caminhões estavam parados, descarregando mercadorias, suas carrocerias abertas eram feitas de madeira ornadas com desenhos pintados nas laterais. Homens carregavam sacas de açúcar, farinha, arroz e goma na cabeça e outras mercadoria, aquela situação assemelhava-lhe muito a de um porto, porém sem navios, tal qual era  a chegada de mercadorias nos arredores da praça Saraiva.
Um pouco mais acima estava o casarão do "Seu Quirino", alinhava-se à esquina, que nem a quitanda do seu "Frota" a três quarteirões defronte, praticamente em frente a "casa do Governador, hoje, um Tribunal, ali na Miguel Rosa com Tersandro Paz.
Resolvi entrar pela 1º de Maio, e subindo a rua passei em frente minha casa, a porta, de duas folhas estavam abertas, daí, vi uma senhora altiva, com um vestido preto florido e cintado, seu cabelos negros, grampeados, caiam por trás dos ombros – era minha mãe – o tempo pareceu parar, olhei pra ela, e dei-lhe um aceno, mas o que fazia eu? Ela apenas me olhou, e como poderia reconhecer-me? Eu estava homem feito, e para ela, nesse tempo, eu não passava de um garotinho. Essa cena foi interrompida pela alegria de muitas vozes, sob a luz do poste que ficava em frente a casa de dona Raimunda, vários jovens e adolescente enchia toda a largura da rua e uma animada caminhada grupal, eram turmas de estudantes que vinha tagarelando da escola, suas gargalhadas demonstravam o quanto se podia ser feliz com os amigos, fiquei ali parado vendo-os passar.
Entrei na casa de Dona Iza, em terra de chão batido, passei pela sala  e fui até uma ante-sala da cozinha, tudo cheirava a poeira sob um amontoados de móveis velhos ornados com muitos bebelôs, bonecas, quadros, pinturas e fotos antigas de um tempo que com certeza fora muito importante para ela. Dona Iza, não me via, mas eu a via deitada em uma rede vendo tv, num tempo em que não havia necessidade de fechar portas, pois todos os vizinhos eram de onfiança e, se conheciam e moravam muito tempo em um mesmo lugar.
Saí, passei pela antiga serraria do "Ti Miga", lá o cheiro era de madeira, cola e serragem molhada. Muito instrumentos de marcenaria, serras, lixadeiras, ele fabricava tamancos, couro, pregos e madeira eram seus instrumento. Ti Miga chegou a montar uma lojinha bem arrumadinha do lado da serraria para vender seus produtos. Tinha seu Ribamar, o marido de Dona Iza, que também, apesar de beber e fumar muito, trabalhava com dignidade no ofício de fabricar sandálias de couro cru e alparcatas de pneu.
Revi todas as casas, por algumas ruas passei, outras não, no sonho não vi meus irmãos ou amigos, apenas flashs de algumas coisas.
Lembro de passar pela Miguel Rosa no cruzamento com a Joaquim Ribeiro, não havia sinais de trânsito, mas sim um grande balão (rotatória) cecado com uma mureta de cimento e uma calçada de pedras portuguesas, com grama plantada em seu interior e um poste de iluminação no Centro.
Era mesmo tudo diferente, algum daqueles rostos e cenários do passado ainda me são bem familiares, mas acredite-me estão apenas na memória, não saberia representá-los por desenhos, apenas os descrevo com palavras.
Não sei o sentido do sonho, não o explico, porque foram apenas partes separadas do todo o que foi aquele tempo. Mas posso agrantir que mesmo sendo apenas isso, foi bom voltar ao passado.