terça-feira, 29 de setembro de 2015

MADRINHA


Sábado à tarde, eu dormi. Dormi profundamente, como há muito não fazia. Só me lembro de um sono assim em meus tempos de criança, quando doente e com febre alta, dormia no quarto de minha mãe. Acordava no fim da tarde, com o sol do poente invadindo o quarto, o barulho da vassoura de minha mãe varrendo as folhas do quintal e os gritos dos meus irmãos brincando, algumas e raras vezes, podia ouvir a voz grave de minha madrinha ecoando pela sala, quando ela me vinha visitar.
Talvez, este sono tenha sido providencial para me transportar àquela época e alimentar o desejo de ter minha madrinha ali comigo. Mas sonhos assim, não costumam durar muito, logo apercebi-me de que ela havia partido e que o sono reparador fora apenas um breve ponto de parada temporal, para, de alguma forma, tornar minha perda menos sofrida.
Dona Josefa, mulher guerreira, corajosa, que sempre insistia em dizer que eu era seu filho, com certeza era mesmo, um filho do coração, pois em meus primeiros meses de vida, privado de minha mãe, foi em seus braços que fui alimentado e embalado. Nunca ninguém me gostava de agradar como ela. Sempre tinha uma palavra de carinho. Seus braços sempre estavam aberto para mim, igual as portas de sua casa. Apesar de sempre visitá-la, talvez o devesse tê-lo feito mais vezes. Mas, sabe ela, depois que o peso da vida nos cobra muitas responsabilidades,  o tempo torna-se cada vez mais curto para os encontros. Afora isso, sempre a encontrava na igreja São Raimundo, algumas vezes a levava até em casa. Gostava ela de ir orar, era apaixonada por aquela igreja de São Raimundo. De qualquer forma, apesar dos perigos do mundo moderno, aquela senhora ia todos os dias nas primeiras horas da manhã para sua missa.
Quero guardar dela essa lembrança, de que podia chegar a noite em sua casa e a encontrava sentada à porta em conversa com a família, costume antigo e de família.
A vida funciona assim, como uma estrada de ganhos e perdas. Mas acredito, de que com certeza, alguém a está recebendo com braços abertos. A benção madrinha, a benção padrinho, sejam felizes...para sempre.

Nenhum comentário: